Na sequência de uma conversa com o Dupont resolvi ir vasculhar nos caixotes atafulhados de revistas que tenho a ocupar espaço que poderia ser melhor ocupado com batatas, cebolas, alhos e garrafas de whiskey que insistem em me dar no Natal apesar de me manter abstémio a 95% desde Junho de 2004.
A missão tinha um objectivo bem claro, para contrastar com a cor das minhas mãos no final da tarefa, encontrar a minha colecção de revistas K. Com o número 1 editado em Outubro de 1990, a K incluía nas suas fileiras nomes como Carlos Quevedo, Paulo Portas, Rui Henriques Coimbra, Vasco Pulido Valente, Miguel Esteves Cardoso, Agustina Bessa-Luís, Nuno Miguel Guedes, João Bénard da Costa, Pedro Ayres de Magalhães, Pedro Rolo Duarte entre muitos outros. Uma equipa que misturava nomes consagrados com outros que, hoje em dia, são referências na blogosfera e na imprensa nacional.
Mais importante que tudo isso, apresentava uma irreverência e uma tendência para a provocação gratuita nunca antes vista no panorama nacional. Nem depois. A começar logo no número 1. E na capa, a lembrar o célebre livro da terceira classe do ensino primário dos anos finais do Estado Novo.
É difícil destacar artigos ou rubricas mas, neste primeiro número, saltava á vista uma entrevista em formato de ataque directo à jugular, feita por Graça Lobo ao Secretário de Estado da Cultura dessa época, o futuro primeiro-ministro Santana Lopes. Pode ser lida na íntegra aqui. De ir às lágrimas.
Não resisto a publicar aqui este delicioso excerto:
K: Que curso é que tirou?
P.S.L. Direito.
K: E com que nota?
P.S.L. Acabei com 15, na Clássica de Lisboa. Fui sempre um dos melhores alunos do meu curso. Tenho quase pronta a minha dissertação de mestrado, para depois seguir para o doutoramento. Quando fui para o Governo da primeira vez tinha 29 anos; depois fui para o Parlamento Europeu.
K: É natural: tinha por trás o maior partido português ...
P.S.L. Eu sei. E foi como sabe: não falei na campanha porque o meu partido assim o entendeu - e eu achei bem, embora tenha sido um papel custoso, que eu fiz com todo o sacrifício. Mas eu acho que nos devemos sacrificar por causas colectivas, projectos colectivos. Trabalhei muito com o doutor Sá Carneiro. Eu era o seu assessor jurídico quando ele era Primeiro-Ministro. Era um gaiato, como se diz em certas zonas do país. O doutor Sá Carneiro, lembro-me, na altura dispensou a segurança e zangou -se com a polícia. E eu andei a fazer de guarda-costas dele; ele não aguentava, por causa da coluna, levar pancada nas costas quando estava no meio das pessoas e eu, como era mais alto, lá andava sempre com os braços à volta, e adorava fazer o que ele me pedisse. Lembro-me que à noite - nunca escrevi isto; um dia hei-de escrever, tenho já muita história para contar, com quase 34 anos -, à noite ia ver o colchão dele, se ele tinha a tábua para as costas, e ia pôr-lhe um bocadinho de whisky que ele gostava e nunca me cairam os parentes na lama, pelo contrário.
Os pensamentos iluminados de duas mentes brilhantes escorrem pelas páginas deste coiso.
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segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Chicotes e botas de couro brilhantes
Após colocar na sua capa em quatro meses consecutivos os The Who, Crosby, Stills, Nash & Young, Beatles e Yardbirds, a cada vez mais conservadora Uncut resolveu dedicar a capa e algo mais da edição de Dezembro aos Velvet Underground.
Além de 12 páginas inteiramente dedicadas à banda de Lou Reed, ainda é possível ler uma entrevista com o sempre notável Edwyn Collins, paladino da divulgação do último ópus dos VU, "Loaded", através da música produzida com os seus estimados Orange Juice na primeira metade da década de 80. O seu primeiro LP é, ainda hoje, um dos meus 10 álbuns de estreia favoritos.
Para terminar em beleza, muita atenção a essa candidata a banda do ano (pelo menos aqui no blogue, com 50% dos votos até ao momento), os Wild Beasts com o seu extraordinário LP Two Dancers. Curiosamente, ao longo do artigo sobre a banda, são citadas influências díspares, dos menores Oasis aos Smiths e mesmo a Leonard Cohen. Pessoalmente, confesso que logo após a audição do seu LP anterior, Limbo, Panto, um só nome me saltou à cabeça: os Orange Juice de Edwyn Collins.
Isto anda tudo ligado, como dizia Sérgio Godinho.
(Falling and Laughing, Orange Juice)
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Boing Boom Tschak
À boleia da remasterização da obra (quase) completa dos magníficos Kraftwerk, a revista Mojo apresenta uma entrevista com Ralf Hütter, o sobrevivente do duo original após a saída de Florian Schneider, em que se fala bastante sobre a história da banda, e onde se percebe que o músico não está particularmente interessado em falar do fim da actividade do grupo, mostrando-se entusiasmado em manter o intenso calendário de actuações ao vivo dos últimos 5 anos e em finalizar um novo álbum em 2010.Aparentemente foi esta alteração nos hábitos da banda, cujos espectáculos ao vivo eram uma raridade, que terá levado ao abandono de Florian Schneider, mais interessado na vertente experimental do que na massificação da apresentação pública da sua música.
A reportagem inclui depoimentos de Moby, James Murphy dos LCD Soundsystem e Stephen Morris dos New Order (entre outros herdeiros) e o cd que acompanha a revista inclui mais de uma dúzia de faixas de bandas "filhas" dos Kraftwerk.
Confesso que não tive grande paciência para ouvir o cd mais de 2 vezes. Salvo raras excepções, é uva de fraca colheita. Para matar saudades, coloquei no stereo do carro o cd The Mix de 1991, onde os Kraftwerk apresentavam novas versões para os anos 90 e para as pistas de dança da geração E de alguns dos seus temas mais conhecidos.
Curiosamente, a versão de Autobahn (e outras presentes em The Mix, mas esta é o exemplo mais forte) é um completo rip-off de Blue Monday dos New Order que, por sua vez, nunca teria existido sem Trans Europe Express.
(Planet Rock, Afrika Bambaataa)
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terça-feira, 29 de setembro de 2009
Man of the Match

Jack White foi considerado o Homem da Década pela revista Uncut. Se até já entrou nos Simpsons, quem sou eu para discordar?
(I Think I Smell A Rat, The White Stripes)
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