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segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Memórias difusas de Vilar de Mouros (30 anos depois) - parte 2


(continuação)

 A manhã seguinte demonstrou que a nossa opção não foi a melhor. Ao longo das primeiras horas começaram a chegar grupos de gente aos magotes e, tal como nós, optaram pela solução mais fácil, acampar na praia. Correndo o risco de vermos o local onde estávamos alcançar um índice populacional superior à baixa de Tóquio, resolvemos arrumar as trouxas e subir o rio em algumas centenas de metros, á procura de um local com sombra e com pouca gente. Não foi preciso procurar muito. Rapidamente assentamos arraiais junto a uma pequena clareira, a uns bons 30 metros da margem do rio, no meio do mato bravo mas, por enquanto, limpo e sossegado. No local ainda foi possível aproveitar o que restava de uma antiga fogueira, rodeada por enormes calhaus, a que daríamos bastante uso.

 Nos primeiros dias, o tempo passava-se entre o tasco e o local do festival, totalmente aberto aos transeuntes, devido ao facto de cortar a meio uma rua á qual, com muito boa vontade, se poderia chamar de “principal”. À distância de 30 anos, uma primeira visão do espaço onde o Festival iria decorrer era reveladora do completo amadorismo e da dimensão do potencial desastre que se aproximava. À época, o entusiasmo juvenil, a sensação de liberdade e a total inconsciência no sentido lato do termo, faziam tábua rasa de tudo o resto.

 As casas de banho, e por casas de banho entenda-se retretes ou sanitas, conforme preferirem, seriam insuficientes se estivéssemos a falar da comunhão solene de um órfão de pai e mãe com um enorme défice de competências sociais. Como se tratava de um festival onde eram esperadas cerca de 20,000 pessoas na primeira noite (números avançados pela organização), rapidamente se chega à conclusão que o técnico que planeou esta parte do evento tinha um mórbido sentido de humor, era um perfeito incompetente ou sofria de prisão de ventre desde o regicídio de 1908.

 No que toca à alimentação, e tirando o já referido tasco da azenha, sobrava a boa vontade de alguns indígenas que vendiam sandes a preços nada especulativos, ao contrário do que se poderia esperar. O resto era o zero absoluto. Da parte da organização, que me lembre, nada foi providenciado. Segundo julgo saber existia um ou dois parques de campismo “oficiais” onde a situação poderá ter sido diferente. A maioria das pessoas que ocorreu ao Festival e que, tal como nós, acamparam no meio do mato e tinham pouco ou nenhum dinheiro, passaram fome e/ou roubaram a fruta dos pomares vizinhos. Desde já, aqui ficam as minhas desculpas pelos actos à época cometidos e um muito obrigado pela compreensão dos locais que sempre nos trataram com o maior carinho, em vez de nos aviarem umas sacholadas na cornadura que era aquilo que merecíamos.

 O palco, uma minúscula estrutura de betão de pouco mais de metro e meio de altura, era ladeado por uns frágeis andaimes que ameaçavam desmoronar-se à primeira rajada de vento e serviam de suporte às colunas do PA que, alguns dias mais tarde, seriam cobertas por uns plásticos, devido ao anúncio de uns chuviscos de verão. Junto ao palco, abandonados à sua sorte, repousavam meia-dúzia de gradeamentos que, durante os primeiros 5 minutos do concerto dos Bunnymen, serviu para manter o público afastado do palco. Na cobertura de zinco, era visível um conjunto de lamparinas, que constituía o sistema de luzes e  seria utilizado ao longo dos nove dias do evento.

 Tudo aquilo parecia mais apropriado a um arraial minhoto que a um Festival de música onde estariam presentes milhares de pessoas. Mal sabíamos nós que, alguns dias depois, estaríamos mesmo a assistir, atónitos, a uma verdadeira desfolhada minhota.

 (continua)

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Memórias difusas de Vilar de Mouros (30 anos depois) - parte 1

Não me recordo quanto custou o bloco de 9 bilhetes para o Festival de Vilar de Mouros de 1982. Recordo-me de ir comprá-lo, com o Berto, companheiro inseparável de concertos e afins durante uma boa meia-dúzia de anos, à Tubitek, uma loja de discos que existia na Praça D. João I. O valor nominal dos bilhetes é 2,350 escudos mas, como foram comprados com muita antecedência, no regresso a casa após uma manhã passada na Feira de Vandoma, a coisa deve ter ficado pelas 2 milenas.

As notícias avançadas semanalmente pelo jornal Sete anunciavam um manancial de bandas que valiam bem a deslocação a Caminha e o sacrifício de estourar 2 conteiros em bilhetes com tanto tempo de antecedência. Afinal, tratava-se do primeiro festival de música do pós-25 de Abril e, de uma assentada, seria possível assistir a concertos tão apetecidos como Durutti Column, A Certain Ratio, New Order, U2, Bunnymen, The Fall e muitos mais. Os Hawkwind estavam referenciados como cabeças de cartaz.

A vontade era tanta que resolvemos arrancar para Caminha alguns dias antes do início das festividades. Penso que viajamos no dia 26 de Julho, 5 dias antes do início, mas posso bem estar enganado. Este pormenor é importante porque, durante a fase de orçamentação (?) da empreitada, estes dias adicionais não foram tomados em conta. Mas disso falarei mais para a frente.

Ao sair do comboio, na estação de Caminha, deparamo-nos com o vazio total. Do anunciado mar de gente, uma chusma de peregrinos em busca do seu próprio verão do amor (pois, pois), não havia qualquer sinal. A falta de dinheiro e a certeza de arranjar uma boleia levou-nos a meter os pés ao caminho até Vilar de Mouros. 6 quilómetros percorridos a pé, debaixo de um sol quente de Verão. A boleia foi uma miragem, mas não para a outra margem.

Seguindo a indicação de alguns simpáticos indígenas aterramos no tasco da azenha, um excelente local para comer umas sandes e atestar uns copázios de tintol a um preço catita, com uma excelente vista para a, como o nome indica, azenha. A azenha era um local bonito, com uma queda de água modesta que tombava sobre uma pequena praia e formava um lago, excelente para a prática da higiene diária. De um dos lados sobressaía um conjunto de edifícios de pedra, em ruínas, talvez um antigo moinho, que despontava no meio do arvoredo que o rodeava. À primeira vista, um excelente local para montar o estaminé. Tinha tudo o que era preciso, um tasco, uma praia e uma gigantesca banheira, a 5 minutos a pé do local do festival. (continua)