quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Paris au Printemps


Em finais de 1989, com a colocação no mercado de parte do catálogo na colectânea Sound and Vision, Bowie anunciou uma tournée onde tocaria, pela última vez, os clássicos da sua carreira dedicando-se, a partir daí, ao projecto de inspiração duvidosa, Tin Machine. O alinhamento dos concertos seria composto pelos referidos clássicos e por cinco temas escolhidos, via telefone, pelo público de cada uma das cidades em que se realizavam os espectáculos.

Se isso se realizou ou foi apenas folclore, ninguém sabe. No entanto, ficou famoso o golpe publicitário do New Musical Express, que iniciou uma campanha para levar The Laughing Gnome ao alinhamento dos espectáculos londrinos, "obrigando" Bowie a tocar uma das músicas mais embaraçosas da sua carreira, o que não viria a acontecer.

O bootleg Paris Au Printemps é o mais famoso testemunho desta tournée, possuindo uma qualidade sonora bastante aceitável (registo soundboard - SBD), sendo uma boa memória para todos os que estiveram no Estádio de Alvalade, no fim de tarde de 14 de Setembro de 1990, dada a semelhança do alinhamento dos dois espectáculos.

David Bowie
Paris au Printemps (2 cd) - 3 Apr 1990

SBD

Disc 1
1. Beethoven's #9 Symphony
2. Space Oddity
3. Changes
4. TVC15
5. Rebel Rebel
6. Golden Years
7. Be My Wife
8. Ashes To Ashes
9. John, I'm Only Dancing
10. Fashion
11. Life On Mars
12. Blue Jean
13. Let's Dance
14. Stay
15. China Girl

Disc 2
1. Ziggy Stardust
2. Sound and Vision
3. Station To Station
4. Moon Of Alabama
5. Young Americans
6. Panic In Detroit
7. Suffragette City
8. Fame
9. Heroes
10. Pretty Pink Rose
11. Queen Bitch
12. Jean Genie

sábado, 16 de outubro de 2010

Prince e Miles Davis






















Bootleg. Crucial. A foto apresenta a capa de uma edição de Crucial, vulgarmente apresentado como a única gravação de Prince com Miles Davis. Aparentemente, a colaboração entre os dois estaria prevista para ser incluída em Tutu, de Miles, e num LP de Prince. Nunca aconteceu. Fontes seguras garantem que Crucial é uma fraude e que o H Man, apresentado na faixa de abertura não é Miles. A verdadeira colaboração entre os dois terá ocorrido num concerto privado, registado na mansão de Prince em Paisley Park, no Minneapolis, no último dia do ano de 1987. Ã cópia que possuo não tem dados de origem, mas a qualidade é muito aceitável. O alinhamento é o seguinte:
01: Hot Thing
02: If I Was Your Girlfriend
03: Let's Go Crazy
04: When Doves Cry
05: Purple Rain
06: 1999
07: U Got That Look
08: It's Gonna Be a Beautiful Night > Six > Miles solo > Housequake >
Chain of Fools > Cold Sweat > Take the A Train > Housequake >
Funky Man > Land of 1000 Dances > Piano jam > Alphabet Sweat >
Cold Sweat > Float Like a Butterfly, Sting Like a Bee > Housequake >
It's Gonna Be a Beautiful Night

Como está indicado, Miles apenas apareceu, num breve solo, durante a última faixa, It's Gonna Be A Beautiful Night.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Radio Cramps : The Purple KNIF Show


The Purple KNIF Show regista uma sessão para uma rádio de Hollywood apresentada por Lux Interior dos The Cramps. O programa foi transmitido em Julho de 1984 e foi comercializado sob a forma de duplo LP em França, e rapidamente se tornou num raro objecto de colecção. Actualmente pode ser adquirido, em CD, através da Amazon ou numa loja com um bom catálogo de importação.

Ao longo de uma hora, Lux apresenta vários clássicos do rock'n'roll e rockabilly, velhos temas do rock de garagem como Louie Louie, pelos The Swamp Rats, Jack The Ripper, pelos The One Way Streets, ou The Addams' Family Theme, por Vic Mizzy. Por aqui aparecem também nomes grandes do Garage Rock, que inspiraram o som dos The Cramps, como os Trashmen ou Link Wray (que recentemente voltou à actividade).

Mas o melhor da festa não é a música, mas sim a forma como Lux apresenta o programa, com uma locução anárquica e uma voz cavernosa, distorcida pelo feedback e reverberação, como que saído de um filme gore dos anos 50, uma espécie de Wolfman Jack sob o efeito de ácidos.

A qualidade do som não e a melhor, mas é um disco imprescindível para quem quiser perceber a origem do som The Cramps, ou para quem ainda pensa que os anos 50 eram o Elvis e o Bill Haley.

Infelizmente, quem colocou o disco no Youtube, mutilou-o completamente, retirando a parte da locução e mantendo apenas as canções, no fundo alterando toda a estrutura da emissão. Fica aqui a primeira parte, onde é possível ouvir a introdução.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Grinderman

Este Dupond anda a escrever tão bem que desconfio que o gajo anda mas é a traduzir os artigos da Uncut...

A excelente posta sobre os Grinderman e o Cave está tão bem esgalhada que é sem dúvida merecedora deste bico público.

Aqui há gato...


Chama-se Tobias a grande contratação felina para a temporada 2010/2011 cá de casa. Tobias apresenta boa compleição física, bom porte atlético e vai dos 0 aos 100 kms em vários dias, porque não faz outra coisa que não seja dormir, dormir e dormir. Nos intervalos come e bufa, porque não deixa ninguém pôr-lhe a mão. Espero vendê-lo ao Benfica para o ano, por oito milhões e meio...


Uma noite com os rapazes...

1. Sou fã de Nick Cave. Quanto fã és tu, perguntas tu, Marilú. Quando o meu filho nasceu, sugeri chamar-lhe Nick Cave. A minha mulher, surpreendentemente, não deixou. Como alternativa, propus Lucas (o nome do primogénito do sr. Cave). A minha mulher não deixou, ameaçou-me com o divórcio e um enxerto de porrada. Que tal Eduardo, disse eu? Desconfiou mas, após lhe recordar que é o nome do meu amigo mais antigo, aceitou. Ainda hoje desconhece que o homem se chama Nicholas Edward Cave... Se isto não vos basta, afirmo aqui, que fui um dos otários que comprou o Nocturama, esse disco que está para os Bad Seeds como o Death Of A Ladie's Man está para o Leonard Cohen ou o Self Portrait para o Bob Dylan.

2. Todo este relambório vem a propósito da edição, já amanhã, do segundo trabalho dos Grinderman, ao qual foi dado o nome, revelando muita originalidade, de Grinderman 2. Só o ouvi 2 vezes, porque tenho o novo Interpol a bater à porta, e fiquei um pouco desiludido com o resultado. Principalmente depois do que nos foi oferecido no primeiro disco. Quando ouvi o anterior LP fiquei com a ideia que Cave se fartou de estar em casa a jogar scrabble com a mulher e a criançada, e resolveu ir para a farra com a metade dos Bad Seeds que estava disponível na altura. Resultado: um álbum de rock de garagem, sempre nos limites, a lembrar os bons velhos tempos de John Spencer ou White Stripes, com a fúria dos Birthday Party a servir de base a algumas das melhores letras do NC, pós-The Boatman's Call. Como catarse não podia ser melhor. Ou podia? Alguns tempos depois, o resultado da paródia fez-se sentir no último dos NC&TBS, Dig Lazarus Dig, através da incorporação de sons muito mais agressivos, com Cave e Ellis a usarem as guitarras como elemento fundamental do som da banda, o que não acontecia desde Henry's Dream, o disco enjeitado. O preço a pagar: a saída de Mick Harvey, o sideman dos tempos dos Boys Next Door, após uma crescente subalternização do seu papel na banda em favor do novo wonderboy, Warren Ellis.



3. O novo disco não traz nada de novo, bem pelo contrário. Não aponta um outro caminho, limitando-se a apresentar um conjunto de canções que parecem saídas de outtakes do primeiro disco. As letras, contudo, são excelentes. Cheias de visões de um apocalipse privado, como é habitual, carregadas de um humor corrosivo e violento, a roçar o sadismo. À excepção de Evil, a mais curta canção do disco, e do tema que o fecha, Bellringer Blues, tudo o resto parece ensombrado pelos 2 últimos discos do combo, os já referidos Grinderman e Dig Lazarus, Dig, representando uma continuidade e um apaziguamento sonoro, onde o anterior representou uma ruptura no som dos Bad Seeds que culminou na produção de um dos melhores discos da banda, de há muito tempo para cá, Dig Lazarus, Dig.

4. E depois de ver o inenarrável vídeo para o single Heathen Child, só espero que a Suzie Bicks venha buscar o maridinho ao pub, por uma orelha, e o leve para casa em dois tempos. 2011 está à porta e há um novo disco dos Bad Seeds para fazer.

domingo, 12 de setembro de 2010

Li e Gostei - Benjamim, Chico Buarque


Depois do extraordinário "Leite Derramado", voltei a aventurar-me por terras buarqueanas e não me arrependi. Benjamim é um grande livro. Lá mais para o fim do ano pego no "Budapeste" para ver o que acontece.

Há uns anos atrás, um amigo enviou-me um daqueles questionários esquisitos, pedindo-me para responder porque queria pôr os resultados no "site" que então entretinha. Apenas me lembro de uma das respostas que era, à pergunta "Qual o melhor sentimento", a saudade. Eu gosto de ter saudades, aprecio navegar nas águas da nostalgia. Mas detesto o saudosismo e o Senhor Francisco Buarque, distingue isso muito bem nos seus romances em que, por via de regra, o personagem central é um homem em fim de caminho, obcecado pelo que ficou para trás, não tendo a capacidade de rever a história ternamente como quem folheia um álbum de fotografias, mas como quem quer construir desesperadamente uma máquina do tempo que o leve de volta.

Chegado à meia-idade, é isso que constantemente me interrogo: como vai ser quando, privado de poder desfrutar de quase tudo o que hoje aprecio, me limitar a ser espectador dos outros? Conseguirei ter elegância na aceitação da inevitabilidade, ou virarei Benjamim? A não perder.

Li e Gostei - A Casa do Silêncio, Orhan Pamuk

Foi o primeiro livro que li deste autor galardoado com o Prémio Nobel da Literatura em 2006. Como bem aqui escreveu o Dupond, aqui não se faz crítica literária, que é feio.

Mas é um livro mágico, que tem entrada directa nos meus 100 favoritos (onde já estão mais de 300...).

De facto, cada vez aprecio mais os autores orientais (publicados por cá). Tornei-me fã de Naguib Mahfouz depois de ler o excelente "O Beco dos Milagres", prazer prolongado pelo intrigante "As Noites das Mil e Uma Noites".

Preparo-me para, em breve, petiscar "O Contador de Histórias", de Rabih Alameddine, um autor jordano de ascendência libanesa do qual conheço absolutamente nada - o que só aumenta o gozo - mas sobre o qual já li coisas que aguçaram a curiosidade.


Gitanes vs Gauloises

Já se terá porventura escrito nestas últimas semanas tudo que de mais ou menos relevante haveria a dizer sobre a polémica expulsão de membros da comunidade cigana patrocinada pelo senhor Sarkozy - incluindo a vergonha que foi a repescagem do Quaresma por força da lesão do CR7.

Por mim, acho irónico que seja a França, berço dos direitos humanos decorrentes da Revolução de 1789, a fazê-lo: liberdade, igualdade e fraternidade, se fores branquinho, não usares burka ou fez ou solidéu.

Não consigo é evitar dar por mim, lendo os mais inflamados parágrafos de defesa dos direitos da comunidade cigana a circular livremente no território da UE, a pensar no seguinte: quantos destes rapazes de eriçada pena, aceitariam (ou aceitaram) viver na vizinhança de um acampamento cigano? Quantos não se sentem genuinamente inseguros e ameaçados por terem ciganos nas proximidades? Quantos permitem que os seus filhos (nem digo filhas, para não parecer sexista) convivam livremente com rapaziada da etnia cigana (ou romani, a expressão parva que agora se inventou)?

A medida do governo francês é imperdoável. Mas o cheiro fétido da hipocrisia avança por aí fora.

Direito de Resposta

Eu cá não sou politicamente correcto e não gosto dos Arcade Fire (o Dupond acha que eu sou uma besta, mas pronto...). Mas os National, Senhor? Porque lhes dais tanta dor? Porque padecem assim?
De repente, dá-me a ideia que o mestre Marmeleiro juntou-se ao coro dos que analisam as bandas (não a música, parece-me) pela escala underground, quer dizer: se se atira um nome que ninguém conhece, bom. Se os tipos até já venderam uns disquitos e por isso começam a parecer a modos que mainstream, então uuuh! fora! é paneleiro!

Não sou um aficionado de música como o Dupond, um rapaz de quem um amigo comum dos anos 80 dizia conhecer tudo que se edita, até a banda mais garageira do Sri Lanka, mas tal como o Papa dos Monty Python, posso não perceber muito de arte, mas sei aquilo de que gosto.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

O Zé Marmeleira e os Arcade Fire


O que têm em comum os National, os Grizzly Bear, os Vampire Weekend, os Fleet Foxes, os Spoon e os Arcade Fire? Resposta: música pop educada e politicamente correcta. Começa assim o postal de Zé Marmeleiro sobre o LP The Suburbs, dos Arcade Fire. E começa da forma clássica, atirando a carta do politicamente correcto para cima da mesa. Porquê? Ninguém sabe, mas é da praxe que o carimbo do politicamente correcto serve para tudo e mais alguma coisa e quem o retirar do bolso primeiro enfia com uma carimbadela de totó, menino da mamã, menino do coro, na testa do antagonista. E como o Marmeleiro Zé não é nenhum totó, logo se refere às bandas citadas como coisa para bater palminhas em grupo. Palminhas ao som dos National? Porque não? Também já acompanhei o Decades, dos Joy Division, com palminhas e hi-fives, mas estava acompanhado de dois rastas numa coffee-shop de Amesterdão a... tomar um cimbalino. Será que isso conta?

Adiante. Após várias frases sem qualquer sentido, dignas de uma redacção do terceiro ano cuja classificação não lhe dá para ir à oral, somos confrontados com a presença dos piores fantasmas da pop dos anos 80 do século passado (não se pronunciarão aqui os seus nomes). Ó Zézito, anos 80 do século passado? Então de que século poderiam ser? Do século XIX? Será que o marmelo não percebe que escreve para a Time Out sobre música pop, e não para a History Today? Quanto aos nomes que aqui não se pronunciarão, eu pronuncio-os. São os New Order. Os piores fantasmas da pop dos anos 80 (do século passado, obviamente) são os New Order. Poderia especular sobre quais serão os melhores fantasmas da pop dos anos 80 (daquele século que vocês sabem), segundo a opinião de Marmelo José, mas isso era um golpe demasiado baixo, nunca o faria, mas já que insistem... os Spandau Ballet, os Matt Bianco e os Huey Lewis and The News (porque o cronista é cosmopolita). Nunca os Duran. O Marmelo é muito macho.

E o escriba clama O que aconteceu ao indie rock? Ao grito do punk? Ao feedback? Caro Zé, lamento desiludi-lo, mas qualquer analfabeto o pode informar que o punk nasceu em 1976 e morreu, vá lá, uns nove mesitos depois. Estamos em 2010. Já é tempo de enterrar o defunto... Quanto ao feedback, se gosta tanto de torrar as orelhitas e o feedback vale só por si, aconselho vivamente a edição revista e aumentada da última edição do Lou Reed, o Metal Machine Music. Um tratado de modernidade sobre o feedback. Editado, originalmente, em 1975. Muito fashion. Enfiar o feedback num disco dos Arcade Fire é como espetar o mesmo numa cançãozita do viril (não sou eu que digo, é o Marmelo...) Springsteen.

A epístola termina com o nosso herói a lamentar a falta de matéria-prima (porque ideias, pelos vistos, há muitas) em The Suburbs. De matéria-prima, de pathos, de angst e de história. Good Golly Miss Molly! Vou ali ler o L'Étranger (no original, obviamente) e volto já...

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Mão Morta na Serra do Pilar


Concerto dos Mão Morta na Serra do Pilar. Coloquei algumas fotos de má qualidade (a máquina e a habilidade do operador não dão para mais) que dá para ver o look men in black, muito sóbrio, da banda que, se tudo correr bem, acabará por fazer o Coliseu, mais cedo ou mais tarde. O som não era nada mau, mas podia ser melhor. Só assisti a uma hora e pouco, por força das baterias do herdeiro terem descarregado por completo. Mesmo assim, aqui vai: 3 músicas do novo disco a abrir, o magnífico Tiago Capitão (nmo tem tudo para se tornar um clássico), uma que não me lembro o nome (os neurónios tb já não são o que eram) e Conspiração. Do Pesadelo em Peluche ainda tocaram Novelos de Paixão e O Seio Esquerdo de R.P. Intercalaram as novas com os clássicos Oub'Lá, Cão da Morte, E Se Depois, e Anarquista Duval.

Aproveitei para me encontrar com o António Alberto, aqui do Musicbook, com quem comecei a ir a concertos, no entanto já não fazíamos isto há uns bons 20 anitos. No mínimo. Valeu.

A Estrada, de Cormac McCarthy


Já devem ter reparado que, por norma, falo dos livros que estou a ler, mas nunca dos que acabei de ler. Há vários motivos para o fazer. Quem quiser ler críticas a livros, sabe onde encontrar profissionais fiáveis em quem confiar antes de gastar o dinheiro que tanto lhe custou a ganhar, não vem ler parvoíces escritas por dois semi-analfabetos, num blogue marado. Por outro lado, quando acabo de ler um livro, arrumo-o de vez e preocupo-me apenas com a escolha do seguinte, seguindo um critério rigoroso que, por norma, tem como base científica a selecção daquele sobre o qual o meu olhar cai quando olho para as estantes repletas de exemplares em estado pura lã virgem.

Mas hoje não vou falar do livro que estou em vias de terminar, A Estrada. Limito-me a deixar aqui a opinião de um gajo que lê mais e melhor que eu, o Dupont. Passeando junto à rebentação das pequenas ondas de final de tarde do mar da praia de Moledo, como dois personagens saídos da Morte em Veneza de Thomas Mann, mas sem a morte e sem a pederastia, e lembrando-me que lhe tinha oferecido um exemplar há tempos idos, inquiri-o.

Olha lá, tu já leste A Estrada?

Ao que ele respondeu, com ar angustiado:

Foda-se...
E pronto, com esta vos deixo. Se querem a minha opinião, A Estrada é um livro magnífico, que eu desaconselho vivamente. Boas leituras.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Arcade Fire - The Suburbs

Tal como aconteceu com Neon Bible, tivemos de esperar três anos pelo novo Arcade Fire. E, mais uma vez, a espera compensou. Primeira nota, é o disco mais longo que a banda produziu até agora (64 minutos) e, por vezes, isso nota-se. Não há chouriços para encher, mas há um par de canções que se estranham. O tempo dirá se se entranham. Como não podia deixar de ser, há também os habituais hinos para estádios, vãos de escada ou elevadores (não, não é brincadeira. Há vários clips que mostram a banda a tocar Wake Up em sítios onde dificilmente caberia um doberman bem apessoado).

Ao primeiro tema, a primeira sensação de estranheza. The Suburbs é uma canção primaveril para cantarolar no chuveiro, os Arcade Fire em versão lolipop. O pagode dura pouco. O tema seguinte, Ready To Start, perfila-se como um candidato a ponto alto dos concertos. Butler protesta, Businessmen drink my blood, Like the kids in art school said they would, e nós protestamos também. Os Arcade Fire não estão aqui para brincar, e quando WB proclama Now I'm Ready To Start, replicamos We Hope You'll Never Stop!



Em Empty Room, os AF vestem as roupas da E Street Band, num rock'n'roll curto mas poderoso, um émulo de Out In The Street (do LP The River), com Régine a dar o corpo (e a voz) ao manifesto. O tema Half Light, divido em duas partes, é outro ponto alto do novo disco. Inicia com a brutal suavidade característica dos AF de The Funeral, com o embalo da voz de Régine Chassagne, e transporta-nos para o final arrebatador onde todos os instrumentos parecem possuídos por um desejo de atingir um clímax que sabem ser impossível de alcançar. Segue-se Suburban War, um dos temas em que mais aposto para os espectáculos e para favorito das multidões. Um hino à solidão, num registo pop marcado por uma percussão sincopada e um piano quase solitário, que mantém os outros instrumentos estranhamente afastados da habitual parede sonora.
 
Por fim, após o futuro clássico We Used To Wait, chega o meu momento favorito, mais uma peça em dois andamentos distintos, Sprawl. Na primeira parte, WB lamenta-se, Took a drive into the sprawl, to find the places we used to play, it was the loneliest day of my life, you're talking at me but I'm still far away, com uma guitarra deprimente saída directamente de The Last Goodbye de Jeff Buckley. Em socorro surge a boa da Régine, numa entusiasmante segunda parte muito pop, com sintetizadores saídos do nevoeiro dos anos 80, e mais uma canção sobre flores e andorinhas, à boa maneira das Strawberry Switchblades. Será? Dead shopping malls rise like mountains beyond mountains, And there's no end in sight, I need the darkness, Someone please cut the lights. Como é bom o cheiro a depressão pela manhã...

(originalmente publicado aqui)

sábado, 24 de julho de 2010

Ainda a propósito do regresso do vinilo...


Ando com este livro debaixo do braço. Não me vou alongar muito sobre ele, para já. Li pouco mais de um terço e, a páginas tantas, encontrei uma passagem que pode ser, perfeitamente, atirada para dentro do panelão da mini-discussão aberta em tempos no Musicbook, sobre o regresso do vinilo, a música e os seus suportes. À altura, defendi que ao culto do vinilo estava subjacente o culto de um objecto, o LP ou o 7", por parte de uma geração, e que a problemática da qualidade do som respectivo era perfeitamente secundário, no que toca à música pop. Podem ver o resto no Musicbook. Byrne atira as seguintes achas para a fogueira:

Stefan e eu conversamos sobre o destino do CD e da música gravada em geral. Stefan acabou de ir à Coreia do Sul, que ele descreve como estando, em determinados aspectos, uns quantos anos à nossa frente - diz que já ninguém compra lá CD. Na verdade, quando quis comprar uma cópia em CD de uma coisa que tinha ouvido, teve de ir a uma loja especializada para a conseguir - tal como, na Europa ou na América do Norte ou Sul, iríamos para comprar uma gravação em vinil.
Interrogamo-nos sobre o destino das imagens e do design associados ao LP e CD - um tipo de coisa com a qual ele tem estado envolvido já bastantes vezes. Lembra-me que a ligação entre imagem e música resulta do facto de o vinil se riscar com facilidade e, por isso, necessitar de uma embalagem de cartão mais resistente. E até há relativamente pouco tempo, nem sequer essas embalagens vinham com imagens, ficha técnica, notas interiores, etc. - originalmente, a embalagem que se dava à música era genérica. Antes disso, e durante séculos, as pessoas apreciavam música com todo o prazer sem quaisquer auxiliares visuais a acompanhar ou tipos de embalagens atraentes. No entanto, descobri que quando Alex Steinweiss concebeu uma das primeiras capas de disco,  para a sinfonia Eroica do Beethoven, a embalagem fez com que as vendas aumentassem em 800 por cento. Por isso, o design não é nada que se deva desprezar. As formas de embalagem da música foram evoluindo até se transformarem na personificação de uma visão do mundo representada não apenas pela música mas também pela embalagem, pelo intérprete, pela banda, pelo espectáculo, pelas roupas, pelos vídeos e por todos os outros materiais periféricos. Mas é possível que daqui a não muito tempo estejamos de regresso apenas ao elemento áudio, sem tudo o resto, graças ao mundo digital, onde muita gente compra versões digitais de uma única canção de que gosta, com os materiais e imagens associados à sua volta a serem deixados para trás ou ignorados. A era da nuvem de informação que rodeava a música pop, em representação de uma visão do mundo, pode ter terminado. Stefan não parece sentir nostalgia em relação a isso.


E vocês?

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Joy Division, Piece by Piece - Writing About Joy Division 1977-2007, de Paul Morley

Paul Morley nunca o afirma ao longo das cerca de 400 páginas do seu livro, mas Joy Division - Piece by Piece é um livro sobre a morte. Não sobre A Morte, mas sobre a morte dos seus protagonistas. A história começa em 1977 e alguns dos principais protagonistas morrerão antes da história acabar. Curtis, o mito, Hannett, o feiticeiro, Gretton, o entusiasta, Wilson, a alma, Joy Division, a banda, New Order, o sobrevivente. Todos mortos em 2007.

É irónico que os três sobreviventes, Morris, Albrecht e Hook, venham a ser conhecidos em toda esta história como personagens quase menores. Como se a composição da melhor canção de todos os tempos, Love Will Tear Us Apart, da outra melhor canção de todos os tempos, Atmosphere, e também de Transmission, a melhor canção de todos os tempos, não tivessem sido escritas a oito mãos. Bem como todas as outras. Mas eles estão vivos, e esta história é feita pelos mortos. Still. Apesar de Blue Monday, o maxi-single mais vendido de sempre, em Inglaterra, que quase os levou à ruína, apesar da Madchester de final da década, que não existiria sem eles, apesar do sucesso à escala planetária. Tudo por causa de um fantasma.

O livro é uma compilação, apresentada por ordem cronológica, dos escritos de Paul Morley sobre os Joy Division. E sobre Tony Wilson. E sobre Manchester, a cidade. A história começa em 1977, os Joy Division ainda não são Joy Division, na verdade, ainda não são Warsaw. E termina em 2007, poucos dias após o anúncio da morte de Tony Wilson, o homem que arrastou o jovem Morley, em Maio de 1980, até à urna onde repousava o cadáver de Curtis e lhe anunciou que um dia ele teria de contar toda a história, porque esse era o seu dever para com ele próprio, para com o Norte, para com Manchester, para com Curtis.

Mas a história começa ainda antes, com outro cadáver, com outro suicídio, que não tem nada a ver com a nossa história e tem tudo a ver com a história de Morley. O suicídio do pai, pouco antes do suicídio do próprio Curtis, os dois fantasmas que vão assombrar a história do autor, o cadáver que ele viu e o que desejava ter visto. A obsessão que o levou a ser proibído de escrever sobre os Joy Division pelo New Musical Express, a frustração de não poder declarar a magnificiência de Unknown Pleasures e o deslumbre de Closer. E a glória de Love Will Tear Us Apart, Atmosphere e Transmission. Cada uma delas, a melhor canção de todos os tempos.

Não me recordo de ouvir os Joy Division pela primeira vez. Mas lembro-me de quando ouvi Love Will Tear Us Apart de forma obsessiva, até rebentar com a fita da cassete com a emissão do Rolls Rock onde a canção estava gravada. Ouvi-a no parque de campismo da Praia Verde, no Algarve, um lugar importante para outra história que não esta. Tinha 17 anos e foi a última vez que passei férias com os meus pais. Exilado no gulag algarvio com saudades dos amigos, dos discos, dos livros, da namorada. Não necessariamente, mas muito provavelmente, por esta ordem.

Um ano depois, num outro país, com saudades dos discos, com saudades dos livros, com saudades dos amigos, mas com uma outra namorada, deitei a mão a Unknown Pleasures e a Closer. Os dois no mesmo dia, numa minúscula loja de discos da vila de Überlingen, no sul da Alemanha. Mas essa é uma outra história e eu não a vou contar. Pelo menos a vocês. Mas a história dos Joy Division, contada por Paul Morley, recomendo-a vivamente.

domingo, 4 de julho de 2010

Li e gostei


Não é bem um livro sobre a Segunda Guerra Mundial: é O livro sobre o tema. É como um diário das várias frentes, descritas de uma forma jornalística mas empolgante, com um ritmo diabólico. Saber como acaba o livro não estraga o prazer de o ler. Do Martin Gilbert já lera a biografia de Winston Churchill. Voltou a não decepcionar.

segunda-feira, 7 de junho de 2010